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Na By Kim, Veronica Kim leva a influência coreana para sua confeitaria em São Paulo

15/04/2026 1 visualizações

Antes de fundar a By Kim, confeitaria no bairro paulistano de Santa Cecília, Veronica Kim passou anos tentando esconder aquilo que hoje define sua assinatura. Na adolescência, filha de imigrantes sul-coreanos, evitava até contar o que comia em casa.

“Eu passei a pré-adolescência achando que era branca. Chegava na escola e falava que tinha jantado espaguete”, lembra.

A chef confeiteira Veronica Kim, na By KimBruno Geraldi/CLAUDIA

A realidade era outra: arroz coreano, sopas, kimchi. Em um episódio que ainda ecoa, um colega abriu a geladeira de sua casa e deixou cair uma sopa de missô, espessa e intensa, preparada na noite anterior por sua mãe e servida em uma tigela de barro. No dia seguinte, a cena virou piada na escola. “Eu chorava de vergonha”, lembra.

Hoje, essa mesma herança aparece com orgulho nos doces que ocupam a vitrine impecável da sua confeitaria. O que antes era motivo de constrangimento se transformou em inspiração para a construção de sabores.

Ali, mil-folhas delicados, entremets de acabamento liso e tortas de camadas precisas revelam um trabalho que vai além da técnica: há um cuidado milimétrico com textura, proporção e composição.

Receber revista CLAUDIA By Kim com a chef Veronica Kim
Carro-chefe da casa, o mil-folhas combina técnica francesa com recheio tradicional ou tiramisùBruno Geraldi/CLAUDIA
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Não por acaso, Veronica veio da moda. Criada em São Paulo, no Bom Retiro, cresceu dentro da loja de roupas da família, ajudando desde cedo. “Eu era ajudante geral, fazia de tudo”, conta. O caminho parecia traçado — estudar moda, assumir o negócio, seguir adiante. E assim foi, ao menos por um tempo.

Formou-se na área, passou a atuar no desenvolvimento das coleções e até viu uma linha autoral vender muito bem. Mas o ritmo do mercado logo revelou outra face. Entre problemas de produção, fornecedores e frustrações comerciais, veio o desencanto. Em suas palavras, passou a “odiar moda”.

A pressão para assumir a loja se intensificou quando o pai adoeceu e precisou voltar à Coreia do Sul para tratar um câncer raro. A loja, construída ao longo de décadas, foi colocada em suas mãos: era o momento de dar continuidade ao negócio dos pais. Veronica recusou.

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Os biscoitinhos de sablée são aproveitados das rebarbas da base da cheesecake feita na casaBruno Geraldi/CLAUDIA

“Falei que não iria assumir. Eu não queria nem acordar para ir trabalhar, não fazia sentido para mim.” A decisão abalou a dinâmica familiar. A mãe resistiu, guardou ressentimentos por um tempo. O pai, naquele momento, também reagiu com dureza — a ponto de reduzir a escolha da filha a um papel doméstico. “Ah, então vá casar para cozinhar”, chegou a dizer.

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Com o tempo, no entanto, foi ele quem sustentou a virada. “Pare de insistir, porque não tem como crescer e ser feliz fazendo algo de que não gosta”, disse à esposa para sustentar a decisão da filha. O mesmo pai que, no início, via a gastronomia com desconfiança, se tornaria mais tarde um dos maiores incentivadores da nova trajetória.

Do ateliê à vitrine

O interesse pela cozinha veio cedo e de forma inesperada. Aos 15 anos, em um intercâmbio no Canadá, encontrou na cozinha de uma igreja um lugar de acolhimento.

Sem qualquer vínculo religioso, começou a frequentar o espaço por um motivo mais prosaico: “Eu me apaixonei por um baterista”, conta, rindo. Para se aproximar, se ofereceu para ajudar — e foi ali que algo mudou.

“Me encantei por cozinhar e por servir. Era muito bonito ver aquilo funcionando.” De volta ao Brasil, esse interesse ficou em segundo plano, até reaparecer como refúgio. “Toda vez que eu queria me desestressar, ia para a cozinha.”

A virada definitiva veio em 2017. Enquanto ainda trabalhava na loja, começou a produzir doces em casa. Dominou uma das geladeiras da família, ampliou o cardápio e passou a aceitar encomendas.

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“Era bem amador mesmo. Se pediam algo diferente, eu falava que fazia.” O crescimento veio no boca a boca — especialmente dentro da comunidade coreana, com encomendas para casamentos e celebrações tradicionais, como o Baek-il, uma festa milenar que marca os 100 dias de um bebê.

O negócio ganhou corpo e passou a exigir formação técnica. Incentivada pelos pais (que, a essa altura, já apoiavam a decisão), Veronica foi estudar confeitaria. Resistiu no início, achando que estava “velha demais” para começar do zero, aos 28 anos.

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A chef criou o entremet de maracujá e manga para propor uma sobremesa refrescanteBruno Geraldi/CLAUDIA

Ainda assim, foi em frente. Fez cursos na Coreia do Sul e na Le Cordon Bleu, formação que ganhou dos pais. “Foi a melhor decisão da minha vida”, afirma hoje, aos 36. A partir daí, passou a estruturar suas receitas com base técnica — algo que antes fazia de forma intuitiva.

A By Kim nasceu primeiro como um ateliê, em 2021, em um prédio comercial. Era ali que produzia, embalava e divulgava tudo sozinha.

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As redes sociais funcionavam como vitrine e também como um diário de processo: Veronica compartilhava testes, erros e acertos, além de detalhes técnicos que chamavam atenção pela consistência. Seu humor, espontâneo, acabou se tornando uma das marcas da comunicação. “As meninas falam que eu tenho um dom que é xingar e as pessoas acharem engraçado”, ri.

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Para acompanhar, o matchá latte (acima)Bruno Geraldi/CLAUDIA

O crescimento foi rápido. Em pouco mais de um ano, o espaço já não comportava a demanda. A loja física abriu em 2023 e trouxe um novo cenário. “Nos primeiros meses era sold out toda semana”, lembra.

A produção precisou se ajustar ao fluxo, e a marca ganhou escala sem perder o caráter autoral. Foi também nesse momento de expansão que Veronica ampliou sua visibilidade ao participar da primeira edição do MasterChef Confeitaria, em 2024.

Na TV, chamou atenção pela forma direta — e muitas vezes bem-humorada — com que lidava com a pressão das provas. A mesma franqueza que já aparecia nas redes encontrou ali um público mais amplo. “Eu nunca pensei nisso como carisma. Para mim, era só resolver a situação”, observa.

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Camadas de reconhecimento

No cardápio, a mescla de referências aparece na estrutura das sobremesas. A base é francesa, influenciada por memórias coreanas e ingredientes brasileiros. “Eu cresci com uma mistura de sabores, então isso já é natural para mim.”

Em alguns casos, essa influência surge na técnica, como no uso de acidez em cheesecakes. Em outros, vem da lembrança de sabores provados na Coreia do Sul e reinterpretados. Encontrar esse equilíbrio, no entanto, levou tempo.

Nos testes, ela tratou de reunir suas tias brasileiras e coreanas para provar as criações, mas as respostas eram opostas. “Uma nem comia a segunda garfada, por achar doce, a outra falava que estava sem graça.” Foi nesse contraste que construiu seu próprio ponto.

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Clássico dos cafés de Seul, a torta de nozes com caramelo ganha especiarias brasileiras, como cumaruBruno Geraldi/CLAUDIA

“No Brasil nunca sou reconhecida como brasileira, e na Coreia do Sul não sou reconhecida como coreana. Demorou até identificar o que sou.”

O universo da moda também deixou suas marcas positivas. “É muito parecido. Os detalhes, a organização”, observa.

Nos doces da By Kim, essa herança se traduziu em perfeccionismo. Basta olhar para o menu: delicados carrés palmiers mergulhados no matchá, finalizados com flocos de sal, e bolos estruturados com rigor. Tudo ali passa por repetição e muitos ajustes.

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O palmier em formato de carreiras é coberto com matchá e sal maldonBruno Geraldi/CLAUDIA

Entre os destaques do menu, o mil-folhas é um dos carros-chefe, servido na versão tradicional e também com recheio de tiramisù, com toque marcante de café.

Já o bolo de brigadeiro, com 15 camadas, nasceu de uma inquietação: transformar um clássico em uma experiência mais complexa, tanto no visual quanto na textura.

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O bolo de brigadeiro é formado por 15 camadas finas que equilibram textura, estrutura e saborBruno Geraldi/CLAUDIA

“Testamos até chegar numa proporção que funcionasse em tudo: sabor, corte, delivery.” A torta de nozes com caramelo, comum nas confeitarias coreanas, ganha especiarias brasileiras, como cumaru, enquanto o entremet de maracujá e manga traz frescor e acidez.

A torta de morango, inspirada nas versões de padaria, é uma das poucas que ela come com frequência sem enjoar. “É meu xodó.” Os doces passam por muitos testes, às vezes por meses, até encontrar o ponto ideal.

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Inspirada nas versões de padaria, a torta de morango ganha uma versão delicadaBruno Geraldi/CLAUDIA

“Eu quero que seja igual ao que imaginei”, diz. Esse cuidado virou padrão dentro da cozinha: quem trabalha ali se acostuma com precisão e repetição.

Hoje, Veronica reconhece o caminho que construiu e o quanto ele passa por escolhas difíceis. A confeitaria reorganizou, inclusive, a forma como se enxerga. “Foi um salto de autoestima.”

Na By Kim, cada doce que chega à vitrine é espelho do tempo de dedicação da chef e sua equipe, e é justamente aí que está a medida do que construiu. “É uma realização enorme”, resume.

 

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