A francesa Marie-Bérengère Chapoton passava as férias entre um país e outro. Dormia em variadas hospedagens: das mais simples às de luxo. Ao lado dos pais, apaixonados por viagens, conheceu diferentes culturas — passeou pela África, Ásia, Europa e toda a América. E herdou o gosto por descobrir o mundo.
Cresceu e transformou a paixão em profissão. Seria médica cirurgiã, mas não dessas tradicionais. Queria percorrer o mundo praticando a medicina. Mas o momento não ajudou. “Era uma carreira super concorrida. Tive uma chance, mas meus pais me sugeriram tirar uns seis meses para viajar e pensar na vida”, conta.
Ela concordou e foi para a Inglaterra cursar inglês, enquanto trabalhava como garçonete num hotel da rede Accor. Até que, um dia, alguém sugeriu: “Você gosta tanto de viajar, por que não trabalha em um hotel do grupo no Vietnã?”.
“Só peguei a mala e fui. No Vietña, me apaixonei pela hotelaria de luxo”, recorda. Em Hanói, no Sofitel Metropole, começou pela base: garçonete, cozinha, recepção e concierge.
A experiência mudaria seu rumo profissional. O contato com hóspedes e colegas de diferentes países confirmou o que ela já sabia: queria trabalhar com o que mais a fascinava — culturas, viagens e encontros. A medicina ficou para trás.
Voltou para a Europa, e na Suíça frequentou o Instituto de Educação Superior Glion, prestigiada escola de hotelaria de luxo. E começou por onde já conhecia bem: servindo mesas, arrumando quartos e atendendo hóspedes. Só depois aprendeu sobre gestão e estratégia. “Assim que me formei, cursei um MBA na Essec Business School, na França”, conta.
Carreira meteórica
A paixão e o conhecimento deram confiança à Marie. Em um dos hotéis Accor, ela passou de recepcionista à gerência em menos de um ano. “Tive a sorte de ter mentores desde os primeiros passos. Um dos meus gerentes me disse: ‘Quando fecho os olhos, sei que você está ali, então posso dormir tranquilo’. Essa confiança foi estimulante e transformei isso em resultado”, diz.
Em 2004, ao concluir o MBA, já era auditora interna corporativa do grupo Accor, na Itália. Em seguida, foi liderar projetos. “Entrar na área estrutural me ajudou a desenvolver visão e mindset estratégicos.” Dali em diante, virou gerente de projetos do grupo no Oriente Médio, Sul da Europa e África. Em 2009, assumiu a gerência geral do Sofitel.
Paixão pelo Brasil — e o auge da carreira
Quando chegou ao Rio de Janeiro, em 2013, à frente do Sofitel Ipanema, Marie se apaixonou pelo Brasil. “É um país que toca o coração. Existe uma conexão emocional. O calor e a generosidade dos brasileiros são especiais”, reflete.
A passagem por aqui coincidiu com um momento intenso para o turismo internacional. Durante sua gestão, o Rio recebeu dois dos maiores eventos esportivos do mundo: a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016. “São eventos que acontecem uma vez na vida. Ter os dois em um intervalo de dois anos foi incrível”, lembra.
O Brasil também marcou a trajetória pessoal. Foi aqui que nasceu seu filho — vínculo que tornou o país ainda mais importante. Mesmo assim, cinco anos depois, topou um desafio que vinha com uma mudança cultural abrupta: sair daqui com destino ao Raffles Bahrein, no Oriente Médio.
“Todo líder tem um ciclo de performance. Depois de um tempo, a mudança é importante. Uma pessoa que fica na mesma posição por muito tempo esquece de pensar fora da caixa. Eu adoro desafios, então topei”, diz.
“Não tive problemas, apesar de muitas vezes ser a única mulher em reuniões com mais de 20 pessoas. Viver em regiões diferentes me ensinou muito sobre liderança. Em lugares como o Bahrein, por exemplo, você precisa ser direta ou não executa nada. Em outros, como o Brasil, é preciso construir relacionamentos, ter boa comunicação e ganhar a confiança da equipe para obter resultados.”
Depois de rodar o mundo, não hesitou em retornar, em 2025. Dessa vez, para liderar o hotel Rosewood, em São Paulo. “No primeiro dia de volta, pensei: como pude esquecer esse sentimento tão caloroso dos brasileiros?”, conta.
A ideia do Rosewood, sob sua gestão, é oferecer experiências e serviços especializados. Em janeiro, o hotel lançou um vinho tinto exclusivo, o Muvuca, em parceria com a vinícola boutique Casa Tés. E negociam, para o futuro, a produção de um vinho branco, também exclusivo. “Nossa sommelier, Júlia Derado, identificou outra vinícola com potencial para parceria. Podemos levar os clientes para conhecer os vinhedos e oferecer uma experiência de degustação personalizada, guiada por especialistas”, projeta.
Além disso, o hotel fechou uma parceria com o BTG Pactual no aeroporto de Guarulhos, com terminal privativo e salas exclusivas para imigração, alfândega e check-in. “Após três anos entre os 50 melhores hotéis do mundo, não podemos estagnar. É preciso repensar o Rosewood dos próximos tempos”, conclui como quem voltou para ficar.
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