Repetir o ensino fundamental não fazia parte do meu plano para a maternidade. Lembro disso todas as vezes que preciso fazer uma tarefa escolar com meu filho, especialmente experiências mirabolantes, como aprender método científico testando a putrefação de um mamão.
Era sexta-feira após o almoço. Tiramos da geladeira uma metade já cortada, colocamos num prato e deixamos sobre a pia. Iniciamos o jogo.
Durante três dias, fizemos perguntas, definimos hipóteses e anotamos quatro etapas: observação, experimentação, resultado e conclusão. Sim, apareceram fungos pretos e brancos e encaramos a realidade científica de que o mamão estraga fora da geladeira.
Imaginávamos esse resultado? Óbvio. Era preciso, contudo, experimentar e aprender com novos detalhes. Vale para o mamão, a vida e o bolso.
Outro dia, numa conversa com um planejador financeiro, ouvi uma pergunta simples: “Quais são seus planos para os próximos cinco anos?”. Percebi que não sei mais responder, penso que as velhas regras entraram em colapso. Durante muito tempo, a resposta vinha pronta. Era quase um ritual da vida adulta: traçar metas, desenhar caminhos, imaginar uma linha reta entre quem somos hoje e quem pretendemos nos tornar.
Havia uma crença silenciosa de que o futuro era uma espécie de escada, que bastava subir os degraus certos, “um passo de cada vez”, como tantas vezes repetimos. Percebo hoje, porém, que o progresso se parece mais com uma trilha sinuosa: um sobe e desce, um vai e volta danado.
Talvez você também sinta isso, uma sensação de estar sempre aquém. De correr com foco e, ainda assim, chegar atrasada a algum lugar invisível. Somos treinadas a estabelecer metas claras, mensuráveis, com prazo para acontecer.
Esse raciocínio também moldou nossa relação com o dinheiro. O planejamento financeiro virou uma engenharia de metas: comprar a casa, atingir determinado patrimônio, aposentar-se em tantos anos.
Como a vida raramente respeita cronogramas, carreiras mudam de rumo, relações se transformam, prioridades se embaralham. A renda aumenta e diminui, o mercado oscila, imprevistos surgem. Os EUA atacam o Irã, o Banco Central liquida o Banco Master, a Copa do Mundo é logo ali — eleições também.
Por isso, nesse ambiente nada controlado, metas rígidas parecem menos convincentes. Nesse território surge a incerteza — gatilho para a ansiedade financeira.
Tem dinheiro parado na conta corrente? Leve para a poupança! Sentiu segurança? Pode render mais no CDB ou tesouro direto. Deu bom? Procure um fundo de investimento! Surpreendeu-se com 15% ao ano e começou a pensar na aposentadoria? Contrate uma previdência privada e diversifique sua carteira. Pronto! Está traçada uma trajetória como investidora que pode ir longe.
Quando somos crianças, explorar o desconhecido é quase um instinto. Perguntamos “por quê?”, testamos hipóteses, mudamos de ideia sem drama. Errar faz parte da descoberta.
Em algum momento da vida adulta, porém, trocamos essa curiosidade por uma obsessão por controle, produtividade e desempenho. Queremos saber exatamente onde vamos chegar antes mesmo de começar, inclusive quando o assunto é dinheiro.
O aprendizado com o mamão da pia pode ser mais profundo do que parecia naquela tarde na cozinha com o filhote. Em vez de exigir respostas definitivas do futuro, a vida — e o bolso — pedem menos certezas e mais experimentos.
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