Em um mundo cansado do “neutro perfeito”, o Brasil volta a ser um farol – não apenas como desejo turístico e cultural, mas como referência estética global. O levantamento internacional Global Soft Power Index 2026 (Brand Finance), com mais de 150 mil respondentes, coloca o país novamente entre os 30 maiores soft powers do mundo e aponta a cultura como uma de suas principais forças.
Ao mesmo tempo, a música brasileira acelera no streaming, com crescimento de 27% na receita de artistas em apenas um ano, enquanto o turismo internacional registra recorde.
No mercado, o movimento também é visível: consultorias como a Bain indicam um ritmo de crescimento do luxo no Brasil muito acima da média global, e gigantes do varejo redesenham sua rota mirando o país. Nesse cenário, faz sentido que o design contemporâneo brasileiro encontre potência justamente onde sempre esteve: na raiz – nos materiais, saberes, símbolos e narrativas que transformam identidade em linguagem do agora.
“O significado desse retorno às raízes se explica pelo conforto psíquico provocado pelo já vivido. Tudo o que conhecemos e experimentamos nos traz segurança; o design e a arquitetura ancestral nos acolhem e a moda nos recobre de cuidado, além de ser expressão identitária. Algo como vivenciar camadas de proteção (física, espiritual, psicológica, social…), como caminho possível para lidar com as adversidades brutais da vida cotidiana em nosso tempo”, explica Clotilde Perez, professora universitária, semioticista, pesquisadora, escritora e diretora da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP).
Para Alexandre Salles, arquiteto e especialista em Semiótica Urbana, além de professor titular e coordenador dos cursos de graduação e pós-graduação em design de mobiliário do Istituto Europeo di Design (IED), o retorno ao que é originário e cultural vai além da estética e carrega simbolismos políticos, sociais e históricos.
“Trabalhar com identidade nacional, para mim, é um gesto de responsabilidade. Não no sentido de afirmar uma identidade única, mas de reconhecer que somos múltiplos, atravessados por tensões, silenciamentos e potências. Assumir isso também implica rever quais vozes foram legitimadas na história da arquitetura e quais foram sistematicamente invisibilizadas. Projetar, nesse contexto, é entender que a arquitetura também narra histórias – e escolher quais histórias merecem ser contadas”, declara Salles.
Para Clotilde, essa ressignificação da cultura funciona como um afago em um período conturbado, marcado por crises globais, pandemias recentes e múltiplos conflitos. Voltar ao tradicional proporciona um sentimento de pertencimento e segurança.
“Em um mundo que vive profundas crises e é atravessado pela IA e seus mecanismos invasivos, fundados em algoritmos produtores de realidades programáveis – portanto, simuladas –, só nos resta o humano, tão somente humano, como refúgio pretensamente crível de alguma autenticidade”, diz.
A partir disso, designers e arquitetos repensam não apenas a maneira de projetar, mas também os materiais disponíveis e as possibilidades que eles oferecem. Elementos locais deixam de ser tratados como rústicos e passam a ser trabalhados com rigor técnico e poético.
“Saberes construtivos tradicionais entram no projeto não como folclore, mas como tecnologia viva e real. A memória afetiva deixa de ser nostalgia e se transforma em estratégia espacial, em escala, em relação com o corpo e o tempo. É menos sobre representar o Brasil e mais sobre operar a partir dele”, expressa Alexandre.
Com esse viés, alguns profissionais brasileiros vêm se destacando ao explorar, de forma autoral e inusitada, materiais e símbolos culturais em suas criações. Confira:
Chico Margarita
Chico Margarita é designer e artista brasileiro, com trabalho voltado à valorização do feito à mão, das técnicas tradicionais e dos saberes populares. A partir de uma pesquisa profunda sobre materiais e processos, suas criações transitam entre design, arte e artesanato, revelando uma estética autoral que conecta identidade brasileira, tempo e memória.
“A cultura brasileira se manifesta através das minhas criações, muito inspiradas pela natureza em todas as suas formas e padrões: plantas, flores, insetos, animais, pessoas, cores e texturas. Essa natureza exuberante, rica e diversa é um dos aspectos que caracterizam o Brasil”, declara Chico.

O trabalho do designer é marcado pelo uso expressivo da madeira e do desenho orgânico, pela valorização de técnicas e ferramentas tradicionais e pela aceitação da “imperfeição” do trabalho manual como elemento distintivo, tornando cada peça única.
“O uso consciente da identidade brasileira no design e na arte precisa passar pela diversidade. É como se o Brasil fosse a soma do que há de mais lindo e rico no mundo. Acolhemos tantas diferenças, cores e nacionalidades que o fruto disso tudo é um país mais aberto, humano e caloroso – reconhecido mundialmente por isso”, conclui.
Gabriel De La Cruz | Studio De La Cruz

Gabriel De La Cruz é designer e fundador do Studio De La Cruz, onde desenvolve peças que transitam entre arte, design e funcionalidade. Com uma pesquisa centrada em materialidade, processo e gesto, seu trabalho valoriza o fazer manual e propõe leituras contemporâneas sobre identidade, tempo e permanência no design brasileiro.
“A cultura brasileira aparece menos como referência formal direta e mais como ponto de partida. A observação atenta do cotidiano, dos hábitos, dos modos de fazer e dos sistemas produtivos locais permite identificar materiais e práticas que, quando reinterpretados, indicam caminhos possíveis para o desenho”, explica.

Um exemplo desse olhar é a coleção Soleta, cuja concepção parte da observação de uma técnica tradicional empregada por artesãos na produção de selas de cavalo no Pantanal do Mato Grosso, estado de origem do designer. O costume de mergulhar o couro em água para amaciá-lo antes da moldagem manual inspira o encosto da cadeira e da banqueta da coleção, traduzindo saberes ancestrais em uma execução contemporânea.
“Em um país tão diverso, muitas vezes desconhecemos as realidades e práticas de outras regiões. O design pode atuar como ferramenta de mediação, troca e reconhecimento mútuo”, sugere Gabriel.
Gabriella Marinho

Gabriella Marinho é artista e designer cuja prática parte do barro, da argila e da terra como pontos materiais e simbólicos para explorar formas orgânicas e a identidade afro-brasileira. Nascida em Niterói e radicada no entorno do Rio de Janeiro, sua obra transita entre escultura, pintura e práticas coletivas, refletindo ancestralidade, corporalidade e vínculos com o território, com exposições no Brasil e no exterior.
“Hoje, o foco do meu trabalho é dialogar com o tempo, entender o material e suas nuances. Acredito que a própria terra fala por si. A brasilidade se dá na forma, nos símbolos e na construção desse próprio chão e do que ele representa”, compartilha.

Para a designer, a influência cultural brasileira está na singularidade do fazer manual e na capacidade de observar e interagir com a natureza. “É uma riqueza de possibilidades que instiga o olhar de quem é de fora. Um olhar que une estética e artesania”, finaliza.
Marcus Camargo

Marcus Camargo é designer e artista brasileiro, com trabalho focado na investigação de materiais, processos construtivos e formas essenciais. Suas criações transitam entre arte e design, combinando rigor técnico e sensibilidade manual para construir peças que dialogam com o tempo, o gesto e a permanência.
“Nosso estúdio começou com um trabalho de cerâmica desenvolvido em parceria com artesãos da minha cidade natal, Goiás, conhecida como Goiás Velho. Desde a faculdade, eu tinha o sonho de resgatar isso de alguma forma”, conta.

Segundo o designer, a cultura brasileira influencia diretamente o design, ainda que nem sempre de maneira explícita. “Resolvi olhar para o meu entorno: de onde vim, como as pessoas produziam, quais eram os saberes locais de uma cidade tombada, cheia de artesãos de cerâmica, bordado e pintura.”
Um exemplo é a última coleção de mobiliário do estúdio, feita de madeira e cerâmica, que ressignifica a tradicional forminha de barro usada para assar empadão goiano. “Usamos o mesmo material e formato, mas com outra função. Quando a pessoa vê a peça, não identifica imediatamente essa origem gastronômica”, finaliza.
Pedro Galasso

Pedro Galasso é designer e artista brasileiro, com trabalho marcado pela experimentação de materiais industriais e pela construção de peças de forte presença escultórica. Entre arte e design, suas criações exploram equilíbrio, peso e estrutura, propondo leituras contemporâneas sobre forma, função e identidade.
“Hoje, o foco do meu trabalho é a investigação de materiais e o resgate de técnicas manuais. Tenho mergulhado profundamente no universo da cerâmica e do crochê, ofícios que exigem tempo e o calor das mãos. A cultura brasileira permeia cada etapa desse processo, não apenas como inspiração estética, mas como estrutura da obra”, afirma.

Para Galasso, a valorização do design brasileiro dialoga com a saturação global do artificial. “Quando exportamos nossa ancestralidade e nossas técnicas milenares, entregamos algo que nenhuma máquina ou tendência estrangeira pode replicar. É a nossa verdade que fascina o mercado global.”
Tiago Braga

Tiago Braga é designer e fundador da OIAMO, marca que investiga o design como linguagem cultural e ferramenta de valorização da identidade brasileira. A partir de materiais naturais, técnicas artesanais e narrativas simbólicas, seu trabalho conecta ancestralidade, território e contemporaneidade.
“A cultura brasileira aparece no meu trabalho não como imagem exótica, mas como camada histórica, formada pela interação entre povos indígenas, populações negras e matrizes ibéricas. Apesar de um profundo apagamento cultural, esses encontros permanecem inscritos nos gestos, nos modos de fazer e na relação com a terra”, compartilha.

Para o designer, resgatar as raízes amplia a ideia do que é o Brasil. “No exterior, essa complexidade gera interesse genuíno: o país deixa de ser apenas tropical e exuberante para ser percebido como plural, contraditório e sofisticado.”
“Identidade não é algo que se ‘usa’; é algo que se habita e se constrói. Quando o design aceita essa condição, deixa de ilustrar o Brasil e passa a produzir pensamento crítico a partir dele”, conclui.
O que você achou? 0
Sua opinião é muito importante! Participe do debate com a nossa comunidade.
Seja o primeiro a comentar!
Deixe sua impressão sobre esta matéria e inicie a conversa com outros leitores.