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As Panteras 50 anos depois: o que ninguém percebeu na época

12/04/2026 1 visualizações

Quando escrevi sobre os 45 anos de As Panteras, em 2021, fiquei nos bastidores, nas disputas, nas saídas, nas engrenagens de uma indústria que ainda não sabia lidar com o sucesso feminino.

Hoje, aos 50, fica mais claro que o que mais importa não é apenas o que aconteceu por trás das câmeras, mas o que a série expunha — quase sem perceber — diante delas.

Isso porque, quando Charlie’s Angels (seu nome original) estreou em 1976, o impacto não veio apenas do fato de colocar três mulheres no centro de uma narrativa de ação. Veio também da forma como isso foi feito.

O projeto nasceu dentro de uma lógica industrial muito clara, que apostava na visibilidade do corpo feminino como estratégia de audiência.

Beleza como linguagem e estratégia

A beleza não era apenas uma característica das personagens. Era um critério de seleção, uma linguagem e um dispositivo de atração.

A câmera operava a partir disso. Os figurinos reforçavam essa escolha. E a própria narrativa frequentemente se estruturava em torno dessa exposição.

E, ainda assim, havia algo deslocado ali.

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Porque, ao mesmo tempo em que respondia a essa lógica, a série se inseria em um momento histórico marcado pela segunda onda do feminismo.

Mulheres disputavam espaço, direitos e representação — e a presença de três protagonistas femininas em horário nobre carregava um peso simbólico difícil de ignorar.

A série não resolvia essa tensão. Ela operava dentro dela.

O que foi a “jiggle TV” — e por que isso importa

É importante contextualizar a relevância da série dentro de um movimento de programação de seu tempo.

O termo “jiggle TV” surgiu para descrever uma estratégia da televisão americana dos anos 1970: programas que apostavam no apelo sensual e físico das atrizes como forma de capturar audiência.

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Não era um conceito teórico, mas uma constatação direta de mercado.

Além de Charlie’s Angels, títulos como A Mulher Biônica, Three’s Company e Mulher-Maravilha foram associados a essa lógica — ainda que com diferenças importantes.

No caso de As Panteras, isso foi levado a um ponto particularmente visível.

As personagens frequentemente se infiltravam em investigações por meio de disfarces que exploravam sensualidade, enquanto a encenação insistia em enquadramentos que reforçavam esse olhar.

O que torna essa discussão relevante hoje é que ela antecipa um debate que permanece aberto. A diferença é que, naquele momento, essa tensão era pouco nomeada — e hoje, ela é central.

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Arquétipos femininos e identificação

Parte da força da série veio da clareza com que construiu suas protagonistas.

Não eram apenas três personagens, mas três funções narrativas que se complementavam — e facilitavam a identificação do público.

Kate Jackson, como Sabrina Duncan, encarnava a inteligência estratégica.

Farrah Fawcett, como Jill Munroe, concentrava carisma e presença magnética.

Jaclyn Smith, como Kelly Garrett, operava como eixo de equilíbrio.

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Quando Cheryl Ladd entrou como Kris Munroe, após a saída de Farrah, essa estrutura foi reorganizada, mas não abandonada.

A série dependia dessa triangulação — dessa distribuição de funções que permitia ao público se projetar em diferentes formas de presença feminina.

A Pantera que cada uma escolhia ser

Existe um impacto menos mensurável de As Panteras — mas talvez mais duradouro.

Para muitas mulheres que hoje têm mais de 50 anos, a série não era apenas algo a que se assistia. Era algo que se incorporava.

A brincadeira começava com a escolha de qual Pantera se era. Sempre havia as “Sabrinas”, as “Kellys” e as “Jills” — depois, “Kris”.

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Essa divisão não era acidental. Era uma construção precisa de arquétipos que permitia ao público se reconhecer, escolher e projetar.

A falta de diversidade entre elas não impedia a diversão. Mas é justamente aí que a leitura contemporânea começa a tensionar esse legado.

O peso do nome — e a contradição

A começar pelo próprio nome As Panteras.

Hoje, é difícil ignorar o peso simbólico da palavra, que remete a uma sexualização animalizada — já usada, nos anos 1970, para enquadrar mulheres fora das normas.

No Brasil, na mesma época, Angela Diniz era chamada de “Pantera de Minas” — não como elogio, mas como forma de rotular sua independência.

E há uma ironia inevitável nisso.

Porque, ao contrário dessa imagem, as personagens eram, em grande medida, castas.

A beleza servia para enganar, infiltrar e distrair.

Ainda que a série oferecesse uma possibilidade de identificação e pertencimento, fazia isso dentro de um enquadramento que respondia ao olhar masculino dominante.

O poder invisível de Charlie

Um dos dispositivos mais duradouros da série foi a decisão de nunca mostrar o rosto de Charlie Townsend.

Sua presença se dava apenas por voz — de John Forsythe — transmitida por telefone. Uma figura central e ausente, sempre no comando, mas nunca exposta.

Hoje, é difícil não ler essa escolha como algo além de um recurso criativo.

Ela preservava uma estrutura de poder masculina que não precisava se justificar, se mostrar ou sequer se explicar. Uma metáfora quase perfeita do machismo estrutural.

O fenômeno em números

Entre 1976 e 1981, Charlie’s Angels produziu 110 episódios e esteve entre os programas mais assistidos da TV americana.

Farrah Fawcett se tornou o símbolo máximo desse sucesso.

Seu pôster de maiô foi um dos itens mais vendidos da década de 1970 — uma imagem que ultrapassou a própria série.

Do sucesso aos reboots

Nos anos 2000, a franquia voltou ao cinema com Drew Barrymore, Cameron Diaz e Lucy Liu.

O sucesso foi expressivo. Mas as tentativas posteriores não repetiram o mesmo impacto.

Em 2019, com Kristen Stewart e direção de Elizabeth Banks, a proposta já era mais explícita — e menos ambígua.

E talvez esteja aí o ponto.

Ao eliminar a ambiguidade original, a nova versão revelou a dificuldade de recriar aquela tensão em outro tempo.

O que 50 anos realmente revelam

Cinquenta anos depois, o legado de As Panteras não é uma resposta — é uma tensão.

De um lado, a exploração da imagem feminina como estratégia de mercado. De outro, a introdução de mulheres em posições de ação e protagonismo.

A série não resolveu essa contradição. Mas também não foi irrelevante dentro dela. Revisitá-la hoje é entender o tipo de negociação que ela representou.

Entre visibilidade e controle. Entre desejo e autonomia. Entre o que podia ser mostrado — e o que ainda precisava ser conquistado.

As Panteras não superou essa tensão. Tornou-a visível. E é por isso que ainda importa.

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