Há algo difícil de nomear na casa de Neusinha Saad. Antes mesmo de prestar atenção em qualquer detalhe da decoração, o visitante sente que o espaço tem uma temperatura própria. “Quando você entra, parece que ela te acolhe”, define a moradora. “Você consegue enxergar a casa inteira num olhar.” É esse endereço, em São Paulo, que ela divide com o marido há sete anos.
A influenciadora nasceu em Barretos, no interior paulista, e se mudou ainda jovem para a capital. Desde cedo, demonstrava interesse pelo universo estético: ainda menina, recortava páginas de revistas de moda, montava pastas com referências e observava vitrines nos passeios com o pai. Hoje, esse olhar se reflete tanto na forma como se veste quanto no trabalho como influenciadora de moda e estilo.
O sobrado em que habita não passou por grandes reformas. Quando o casal chegou, os revestimentos de mármore, os pés-direitos e a luz natural já estavam lá. Neusinha conta que se identificou de imediato.
Claro, houve ajustes ao longo dos anos — cores revisadas, tecidos trocados, peças reposicionadas —, mas a única intervenção significativa foi a reforma da piscina. Além disso, a área externa ganhou um gazebo, construído para ampliar o espaço de convivência.

“Nós trouxemos cada um a nossa história”, explica sobre a dinâmica do casal. Os móveis que chegaram com ela têm décadas: o sofá da sala acumula trinta anos, com o tecido renovado, mas estrutura original. Essa relação com os objetos é uma postura aprendida com o arquiteto e decorador João Mansur, amigo de Neusinha desde a década de 1990.

“Ele me ensinou a preservar”, diz. Inclusive, a mesa de centro da sala, assinada pelo profissional e xodó da moradora, foi garimpada de uma edição da CASACOR há quase três décadas e tem bases sólidas de acrílico e tampo de cristal: um caso de amor à primeira vista.
Quando fala da casa, o nome de Mansur aparece com frequência como alguém com quem ela discute cada mudança há anos. “Eu sei exatamente o que gosto e o que não quero”, garante, “mas tenho no João alguém que me ajuda a traduzir isso.”

Veludo e cor
Os ambientes da casa têm espaço para respirar, mas fogem do minimalismo. O veludo aparece em várias superfícies, como almofadas, sofás e cadeiras. E ela considera o animal print indispensável: “Sou muito francesa na decoração”, explica, referindo-se a uma estética de influência europeia que atravessa toda a casa. As cores foram chegando aos poucos. No início, o marido preferia tudo branco — ela, não.

A solução foi começar com um bege muito claro e ir ajustando com o tempo. A sala de TV ficou azul por alguns anos antes de chegar ao ousado amarelo-gema. Os marrons e verdes de outros cômodos compõem uma paleta que foi se formando por etapas. Na entrada, um baú centenário que pertencia à sogra ocupa lugar de destaque — peça de grande valor afetivo para a família, que ela mesma protege com cuidado no dia a dia.

Já na sala, pinturas e desenhos ilustres, com assinaturas de Di Cavalcanti e Portinari, dividem espaço com objetos trazidos de viagens: um cinzeiro encontrado em Capri, castiçais e louças que foram se somando à sua extensa coleção. “Tudo aqui tem um significado. Tudo, tudo”, enfatiza.
O gazebo rodeado de verde, construído em dois tempos — primeiro, um menor, depois, um maior, para comportar os encontros que a casa sempre atraiu —, é onde boa parte da vida social acontece. É lá também que o casal toma café da manhã todos os dias.

“Parece que a gente está fora de São Paulo”, diz, enquanto observa a visita de alguns saguis ao jardim. Nos finais de semana, a família se junta em torno da piscina: são três filhas, três enteados e nove netos ao todo, reunindo mais de uma dezena de pessoas à mesa nas noites de pizza, aos domingos.
Celebrar a maturidade
Neusinha cresceu em Barretos sem proximidade com o universo da moda. Filha de pai libanês e mãe mineira de Araxá, veio para São Paulo com 19 anos para se casar. Esse era o horizonte que a família lhe ensinara e com que ela genuinamente sonhava — casar, ter filhos, construir um lar.
Chegou jovem à cidade grande e foi aprendendo no caminho, sem a possibilidade de buscar uma formação longe de casa. Construiu uma vida que ela não troca: as filhas, uma família que se reúne toda semana e uma casa que carrega cada escolha que fez. Hoje, quando olha para a filha mais nova, de 22 anos, cursando medicina, celebra a trajetória diferente da sua com orgulho e entusiasmo.

A vida profissional foi montada em etapas. Quando deu à luz a terceira filha, abriu uma loja de moda infantil, aproveitando sua aptidão para o comércio. Depois veio um clube de networking, que girava em torno do que sempre fez bem: receber pessoas e criar conexões. Houve fases melhores e piores — “Já vivi do A ao Z. Já morei em apartamento pequenininho, já morei em casa grande. Mas em qualquer lugar que esteja, gosto do que é belo”.

Mesmo nas fases mais difíceis, havia uma bandeja bem posta, um arranjo de flores, uma louça escolhida com atenção. Esse cuidado com os detalhes ela estende às visitas: guardanapos estão espalhados por toda a casa, sempre à mão para quem chega. Já as mesas são arrumadas antes de alguém chegar e cada canto é pensado para quem vai se sentar.
Sua entrada nas redes sociais é recente. Há sete meses, Neusinha abriu um perfil no Instagram. Logo na primeira semana, a publicação de uma receita de bolo de pão de queijo, tradição da família mineira, chegou a um milhão e meio de visualizações. Aos 54 anos, com uma vida inteira de referências acumuladas, ela compartilha a rotina, a moda e o autocuidado com uma audiência que se identifica com ela.

“A Neusinha de hoje é muito melhor que a Neusinha de 20 anos atrás. Eu tenho mais conteúdo, mais vivência, experiência. Minhas seguidoras também estão nessa fase, então temos muita troca. E eu adoro envelhecer bem”, afirma.
“Não tenho medo da velhice, tenho medo de não acompanhar o mundo, a vida. Todos os dias acordo pensando: ‘O que posso mudar para ser melhor?’.”

Nesse caminho como influenciadora, chegou a desfilar na Semana de Alta-Costura de Paris. A proposta veio da estilista Thayná Soares, da marca de slow fashion Thayná Caiçara, que a convidou para representar sua coleção em uma galeria de arte.
“No fim, queria mais”, relembra sobre o nervosismo inicial. Em seguida, veio um convite da Valentino para estar em Roma. Ela atribui esse ritmo a relações construídas ao longo do tempo. “É admiração. Minha por elas e delas por mim”, resume sobre suas conexões.
Entre viagens e compromissos, é em sua casa, entre rotina e encontros, que tudo se organiza. “Quero que as pessoas se sintam amadas aqui dentro”, diz. Quando a visita termina, fica claro que ali nada é cenário.
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