Celebridades

Banco de sêmen: como mulheres escolhem o pai dos filhos

10/04/2026 1 visualizações

Poliglota, fã de música clássica, formado em administração. O doador 540 disse à clínica ser um homem preocupado, realista, persistente e interessado por história. Mas não foi nada disso que chamou a atenção de Cinthia Marques e da esposa Aline Garcia

Elas estavam mais interessadas em encontrar um doador saudável e com algumas características físicas semelhantes às delas: as duas são brancas, têm estatura média e Cinthia é loira. E o 540 parecia ideal. Era loiro, pouco mais de 1,70 metro, tipo sanguíneo O positivo — mesmo grupo que o de Cinthia. Estava decidido, seria ele o doador.

Por quase duas semanas, ela aplicou na barriga injeções com medicamentos para estimular os ovários, enquanto acompanhava o desenvolvimento dos óvulos por ultrassom. No início de fevereiro de 2019, fez o procedimento para coletá-los. Por alguns dias, ficou na torcida para que os óvulos fossem fertilizados, e tomou mais medicamentos, dessa vez para preparar o corpo para a chegada do embrião.

Não conseguiram apenas uma fertilização. Três embriões prontos foram formados para serem transferidos. “O médico nos disse que era melhor transferir dois, porque, segundo ele, era difícil dar certo na primeira tentativa. Colocamos dois para que vingasse um. O terceiro está até hoje congelado”, conta. 

Duas semanas depois, veio a notícia tão esperada: Cinthia estava grávida. Não de um, e sim de dois bebês.

Assim como Cinthia, a maioria das mulheres escolhe a fertilização in vitro (FIV), em vez da inseminação intrauterina, por oferecer uma taxa maior de sucesso na gravidez. Somente no ano passado, foram realizados mais de 62 mil procedimentos desse tipo, uma alta de 7,5% em relação ao ano anterior, segundo dados da SisEmbrio. Apenas uma parcela recorre a bancos de sêmen — entre 8% e 12%, segundo o DataFert —, quase sempre casais de mulheres em busca de aumentar a família.

“Mais de 30 anos atrás, quando minha mãe abriu a clínica, nós víamos mais casais heterossexuais com alguma questão grave de infertilidade masculina. Ou com alguma doença genética grave que eles não queriam perpetuar”, conta Patrícia Fehér Brand, responsável pela área de marketing, parcerias e desenvolvimento de novos negócios do Pro-Seed Banco de Sêmen. 

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“Com o avanço da legislação, em todos seus âmbitos, começamos a ver cada vez mais uma demanda de casais homoafetivos femininos, que são a maioria dos nossos clientes. E também um aumento da maternidade independente, da mulher que cansou de esperar o príncipe encantado e foi atrás de material genético para viabilizar esse desejo”, completa.

O sonho de Cinthia e Aline foi possibilitado pela ajuda de um homem desconhecido. João e Miguel nasceram no dia primeiro de outubro de 2019. Lindos e saudáveis. “A gente conta que foi a um hospital e o médico colocou uma sementinha dentro da barriga da mamãe Cinthia. Eles nunca se importaram ou questionaram. Pensamos na adoção, mas queríamos viver a experiência da gravidez, de ter um neném pequenininho”, diz Cinthia.

Somente no ano passado, foram realizados mais de 62 mil procedimentos desse tipo, uma alta de 7,5% em relação ao ano anterior, segundo dados da SisEmbrioClaudia/CLAUDIA

A regra do anonimato

E nenhum deles — elas ou as crianças — jamais saberão o rosto ou nome do homem que cedeu o material genético. Como o Brasil ainda não tem uma lei específica sobre reprodução assistida, as regras são definidas principalmente por resoluções do Conselho Federal de Medicina e por normas sanitárias da Anvisa. A determinação é de que doadores e receptoras não devem conhecer a identidade uns dos outros — e de que a doação não pode ser remunerada.

“A lógica jurídica do anonimato sempre esteve associada a três objetivos principais: proteger a privacidade do doador, evitar disputas sobre filiação ou responsabilidade parental e incentivar a própria doação de gametas”, explica o advogado Henderson Fürst, especialista em bioética. “Hoje, no entanto, esse modelo vem sendo questionado por outro valor que ganhou força na bioética contemporânea, que é o direito à identidade genética”.

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A popularização de testes genéticos abriu espaço para quem deseja descobrir suas origens. “O anonimato existe juridicamente, mas, tecnicamente, está cada vez mais frágil. E pesquisas mostram que uma parte dessas pessoas têm interesse em conhecer sua origem genética. Nem sempre estão atrás de uma relação familiar, pode ser apenas para conhecer sua identidade e história biológica”, diz Fürst.

Esse cenário mudou a legislação em alguns países. Desde 2005, no Reino Unido, pessoas com mais de 18 anos, concebidas por doação de gametas, podem solicitar a identidade do doador. Suécia, Holanda e Austrália adotaram modelos semelhantes. 

Até por isso, alguns bancos de sêmen estrangeiros oferecem outros detalhes sobre os doadores — e estão disponíveis nas clínicas brasileiras. Dependendo do país de origem, os perfis desses doadores podem incluir informações adicionais, como gravações de voz ou fotos da infância. Um “catálogo” cheio de informações como esse gerado por IA para ilustrar esta reportagem, só em sonho.

A legislação brasileira abre brecha para a quebra do anonimato apenas em situações médicas excepcionais — e somente os médicos são autorizados a saber a identidade do doador. “A legislação protege o feto, a criança. Então se houver algo que coloque a vida dela em risco, a Justiça pode mandar abrir a identidade do doador”, afirma o urologista Sidney Glina, do Instituto H. Ellis, de São Paulo, especializado em reprodução humana e saúde sexual. 

Além de preservar o anonimato ao longo do processo, as normas brasileiras também determinam que os doadores tenham, no máximo, 50 anos. E estabelecem que os participantes só possam contribuir com as gestações de duas crianças de sexos diferentes numa mesma área de até 1 milhão de habitantes.

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“Quando você usa sêmen de um doador, é preciso tomar um cuidado muito grande para que os meio-irmãos não se encontrem, para não ter um risco de incesto”, defende Glina. A única exceção é se as gestações acontecerem em uma mesma família — como seria o caso de Cinthia, se, um dia, ela quiser transferir o embrião congelado e ter um terceiro filho.

A maternidade por doação de sêmen: a história de Cinthia e Aline, o boom da reprodução assistida e o dilema do anonimato
Segundo um estudo internacional, publicado na revista científica Human Reproduction Update, com dados de 53 países, a concentração de espermatozoides caiu mais de 50% entre 1973 e 2018. E o ritmo dessa queda se acelerou nas últimas décadas.Claudia/CLAUDIA

O doador

Encontrar esses homens e montar esses bancos de sêmen, no entanto, não é tarefa fácil. Eles precisam passar por uma bateria de exames, ao longo de seis meses. Antes da coleta, passam cinco dias em abstinência sexual, para não haver risco de ejaculação.

“A gente faz uma pré-triagem dos candidatos a doadores perguntando, por exemplo, sobre uso de drogas, histórico familiar de câncer, doenças hereditárias, psiquiátricas ou sexualmente transmissíveis, até informações sobre alguma cicatriz importam”, explica Féher. “Ser um doador no Brasil requer dedicação do homem. Não é como doar sangue, que você acorda e decide fazer. O doador de sêmen precisa se comprometer ao programa por seis meses.”

De acordo com ela, a taxa de aprovação dos candidatos fica em torno de 5% a 10% no Pro-Seed. E o principal fator é a análise do sêmen. Segundo um estudo internacional, publicado na revista científica Human Reproduction Update, com dados de 53 países, a concentração de espermatozoides caiu mais de 50% entre 1973 e 2018. E o ritmo dessa queda se acelerou nas últimas décadas.

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“As pessoas não estão necessariamente ficando inférteis, mas os números do espermograma têm diminuído”, pontua Glina. “Se antes um homem tinha 100 milhões de espermatozoides por mililitro, hoje pode ter 70 ou 60. Isso pode estar relacionado a fatores como estilo de vida, poluição, alimentação, drogas ou uso indiscriminado de hormônios”, complementa.

Os poucos sobreviventes das exigências não recebem nada em troca, como prevê a legislação. Mas há benefícios: exames gratuitos, consultas com médicos e mapeamento genético que podem indicar mutações recessivas (alterações genéticas que só causam doenças quando a criança herda o mesmo gene alterado do pai e da mãe).

“A verdade é que esses homens são altruístas. Existe um fator X no perfil do doador: a empatia com a causa. Normalmente, eles conhecem alguém que precisou de um banco de sêmen: um casal homoafetivo feminino, uma tia que teve maternidade independente, um primo com infertilidade grave. Eles conhecem a dor, que não podem solucionar por conta do anonimato. Existe uma vontade genuína de ajudar”, observa Fehér.

Quando questionado por que havia decidido doar, o 540 relata situações parecidas com essas mencionadas por Fehér. “Para ajudar outros casais e porque, no meu casamento anterior, minha ex não podia ter filhos”, diz na ficha de cadastro. 

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