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Camisas da Copa 2026: especialistas apontam acertos e erros das marcas

09/04/2026 1 visualizações

As camisas das seleções para a Copa do Mundo de 2026 — que acontece entre junho e julho nos Estados Unidos, México e Canadá — chegaram embaladas em narrativas de identidade, história e ousadia. E, como de costume, geraram entusiasmo e polêmica na mesma medida. 

São 48 seleções competindo no maior Mundial da história, e as três gigantes do setor — Adidas, Nike e Puma — vestem, juntas, 77% dos times classificados. A Adidas lidera com 14 seleções, incluindo Alemanha, Argentina e Espanha.

A Nike patrocina 12, entre elas Brasil, França e Inglaterra. A Puma veste 11 países.

Mas além dos números, o que realmente está em jogo é uma disputa mais sutil: quem é capaz de transformar uma camisa esportiva em objeto de desejo, símbolo cultural e declaração estética? 

A seguir, veja a opinião de especialistas em moda, design, esporte e cultura para uma análise completa dos acertos (e erros) das marcas:

O que as marcas acertaram?

A tendência mais clara desta edição é o investimento em narrativa. As marcas entenderam que, em Copa do Mundo, uma camisa precisa contar uma história; quem entendeu isso certamente saiu na frente.

Para Lara Gruppi, jornalista esportiva e criadora de conteúdo, Adidas e Puma foram as que mais acertaram nesse quesito. “Em Copa do Mundo, a camisa vai além de vestir o jogador em campo. Ela precisa transmitir história, cultura e pertencimento, e essas duas marcas entenderam bem esse papel”, afirmou.

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Uniformes do Chile e Alemanha carregam simbolismo histórico

O uniforme do Chile, inspirado no deserto do Atacama, e o da Alemanha, que faz referência às camisas históricas de 1990 e 2014, são exemplos citados pela jornalista de designs capazes de criar conexão emocional, oferecendo uma narrativa para o público. 

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A decisão da Adidas em lançar os segundos uniformes como parte da linha Originals foi elogiada. “É uma proposta lifestyle, que amplia o alcance das camisas para além do futebol. A Copa do Mundo é um momento em que o esporte ganha atenção global, então faz sentido aproveitar essa vitrine para furar a bolha e dialogar também com moda e cultura”, afirma a jornalista.

Resgate de estética setentista

Ana Vaz, consultora de imagem e personal stylist, apontou que uma das grandes tendências desta Copa é o resgate da estética dos anos 70, com elementos como fundo branco, paleta contida e linhas simples. “Por isso, essas camisas são muito comerciais, fáceis de levar para o dia a dia”, comentou.

Nesse grupo, ela destaca Japão, Alemanha e Marrocos.

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Na camisa reserva do Japão, elogia a sutileza das listras que mantêm o branco em destaque, preservando a neutralidade da peça.

Na Alemanha titular, chama atenção para um detalhe de construção: os grafismos concentrados na região dos ombros criam diagonais que conduzem o olhar para cima. “O ombro mais forte remete à sensação de força física”, explica.

Já o Marrocos surpreende com um detalhe do artesanato local na frente.

As camisas do Japão, Alemanha e Marrocos são tradicionais, porém ganham nos detalhesReprodução/Reprodução

Uniforme da Costa Rica surpreende positivamente

Ainda nos acertos, a consultora aponta a Costa Rica como uma surpresa positiva. A camisa mistura vermelho e roxo — uma cor que representa a orquídea Guaria Morada, flor nacional do país.

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“Ela tem uma modelagem aderente ao corpo sem ser excessiva. Em campo, terá uma altíssima visibilidade: as cores são bem saturadas, puras, e contrastam bastante com o gramado”, diz.

Camisa da seleção da Costa Rica em vermelho vibrante, com estampa abstrata em tons de roxo que cria um efeito dinâmico e moderno. A gola é azul escura, contrastando com o restante do uniforme. No peito, aparecem o escudo da equipe e o logo da marca em branco, que se destacam sobre o fundo estampado
O vermelho vibrante da Costa Rica ganha um toque inesperado com grafismos que puxam para o lilásFifa Store/Reprodução

Argentina aposta em grafismo com movimento

A Argentina reserva também agrada: grafismos com movimento orgânico resultam em uma peça comercial e versátil para o dia a dia. 

A imagem mostra uma pessoa segurando uma camisa escura da seleção argentina, com um design bem ousado e moderno. O uniforme é predominantemente preto, com grafismos em azul que formam desenhos fluidos e quase ornamentais, dando um ar artístico à peça.

No centro aparece o número 10, e no peito estão o escudo da seleção e o selo da FIFA, além do logo da marca esportiva. Ao fundo, o cenário rosa cria contraste com o tom escuro da camisa, enquanto a pessoa veste um conjunto esportivo azul, reforçando a estética fashion e contemporânea da cena.
Grafismos fluidos e identidade forte: a Argentina reserva prova que tradição também pode se reinventar com elegânciaDivulgação/Divulgação

Para Ana, algumas camisas desta Copa acertaram ao entender como o uniforme funciona no corpo em movimento e em campo. É um olhar que une estética e função e que, de acordo com a especialista, raramente é aplicado ao futebol masculino com essa profundidade.

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O ponto de vista do design

A designer e analista de marcas Tati Lermen enxerga nessa Copa um movimento inédito de maximalismo cultural.

“Em 2026, o maior palco do futebol mundial virou também palco de identidades culturais. As camisas desta edição são um capítulo à parte: maximalismo cultural, resgate histórico e orgulho nacional costurados em cada detalhe. Nunca o uniforme disse tanto sobre cada país”, afirma. 

Para a analista de marcas, o México é o exemplo mais completo dessa tendência. “O grafismo é inspirado no calendário asteca, a tipografia da gola foi batizada de ‘Aztechno’ e a frase ‘Somos México’ aparece nas cores da bandeira. A camisa reserva ainda traz as grecas da arquitetura mesoamericana em tom sobre tom. São duas camisas que, juntas, contam uma história inteira”, explica. 

Camisa verde da seleção mexicana com um design marcante em tom sobre tom, formado por padrões geométricos e circulares inspirados em elementos culturais. A gola em V traz acabamento em vermelho, repetido nas mangas, criando contraste com o verde. O escudo do México aparece no peito, ao lado do logo da marca, em branco, destacando-se sobre o fundo detalhado.
Referências culturais e padrões ricos fazem do uniforme mexicano um dos mais detalhadosFifa Store/Reprodução

A França também é elogiada por um acerto de outra natureza — a elegância que dispensa explicação. “A gola polo estruturada em branco, o azul profundo, as linhas diagonais no tecido. Essa camisa transcende o futebol: ela funciona como peça de moda e, vindo do país que define o que é moda, isso claramente não é acidente. É uma declaração cultural vestida de uniforme esportivo, e provavelmente vai circular em editoriais muito antes do apito final”, comenta.

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A camisa da França aparece em azul escuro, com um visual elegante e moderno. O destaque está nos grafismos sutis pelo tecido, que formam padrões fluidos, quase artísticos, dando movimento à peça. O escudo da seleção fica no peito, acompanhado das tradicionais estrelas, e os detalhes em tons mais claros criam contraste sem perder a sobriedade. É um uniforme que mistura sofisticação com identidade contemporânea.
Camisa da França com gola, estilosa e modernaNike/Divulgação

Os erros das marcas: o que faltou nas camisas?

Se por um lado as marcas avançaram no quesito identidade cultural, por outro, algumas escolhas geraram ruído e abriram espaço para um debate que vai muito além do design. 

Estados Unidos entrega resultado decepcionante

Ana Vaz identificou dois uniformes que não funcionam bem no corpo. O primeiro é a camisa titular dos Estados Unidos: apesar do contraste entre branco e vermelho ser interessante, há um problema estrutural. “O fato da peça ser inspirada na bandeira tremulando faz com que você tenha um desenho estranho no corpo. Essa é uma camiseta que não vai vestir tão bem quanto outras”, declara. 

Camisa reserva da Alemanha é pouco ousada

A camisa reserva da Alemanha, apesar de ter uma combinação de cores chamativa, traz um resultado tímido: “Os detalhes minúsculos, espaçados, remetem a uma camiseta de pijama, especialmente pelo estilo do decote V.”

A primeira imagem mostra duas camisas de seleções com estilos bem contrastantes. À esquerda, a dos Estados Unidos traz listras onduladas em vermelho e branco, criando um visual dinâmico e chamativo, quase como uma releitura da bandeira. À direita, a da Alemanha aposta em um azul escuro mais sóbrio, com padrões geométricos discretos e detalhes em azul claro na gola e nas mangas, transmitindo elegância e modernidade.
Nem toda aposta funciona: camisas dos Estados Unidos e Chile decepcionam Reprodução/Reprodução

Segundo Tati Lermen, o erro mais frequente é não saber quando (ou não) inovar. Sobre o Chile, ela defende a ousadia: “É a primeira vez que a seleção usará uma cor diferente do branco ou azul. É natural que uma camisa tão diferente do esperado gere estranhamento, mas transformar um fenômeno natural em identidade visual é exatamente o que um uniforme deveria ter coragem de fazer.” O erro, em sua leitura, está em camisas que tentaram inovar sem uma razão clara por trás.

Brasil: a camisa mais esperada

Para a Copa de 2026, a Seleção Brasileira chegou com duas apostas: uma segura e outra ousada.

A camisa titular manteve o amarelo vibrante de sempre, com design que resgata a essência histórica do uniforme canarinho. A designer brasileira Rachel Denti, que participou do processo de criação, resumiu a filosofia por trás da peça: “Quando vemos a camisa amarela, sabemos que é o Brasil.”

Reprodução
Clássica e afetiva: a amarelinha mantém sua força simbólica, mas o tom mais suave desta edição divide opiniõesReprodução/Reprodução

Do ponto de vista afetivo e clássico, Ana Vaz também elogia a titular: “É uma camiseta bonita, com texturas e desenhos que remetem à fauna, flora, música e arquitetura brasileiras. Dá para ver referências ao Pão de Açúcar, por exemplo. O que eu não gosto é do tom de amarelo desta edição. Ele está mais desbotado, com excesso de branco, o que tira um pouco da força do amarelo canário. Gostaria de ver uma saturação maior”, comenta.

Camisa reserva gerou controvérsia

A camisa reserva gerou grande polêmica. Em azul e preto, o modelo traz o logo Jumpman, da Jordan Brand, no peito — marcando uma parceria inédita. É a primeira vez que uma seleção substitui o tradicional símbolo da Nike pelo da Jordan.

A escolha das cores também não é aleatória: além da ligação com a marca, o design se inspira no sapo-tardo, cujos exemplares apresentam tons de azul e preto.

o uniforme é bem mais moderno e ousado: a camisa é azul escura com grafismos em tons de azul mais claro, criando um efeito de movimento. Os detalhes em amarelo destacam o número, o escudo e o logo, enquanto o conjunto completo (camisa e short) passa uma estética mais tecnológica e contemporânea
Ousada e cheia de personalidade: a camisa azul aposta em contraste, textura e referências à fauna brasileira para marcar presença dentro e fora de campoReprodução/Reprodução

Ana Vaz avalia: “Particularmente, acho a camisa muito bonita. Gosto da mistura de cores e da presença que ela terá em campo — é bem escura, então contrasta bem com o gramado, que geralmente é verde médio a claro. As texturas e o movimento do desenho, inspirados na onça-pintada e na anaconda, são incríveis.”

Ela complementa: “O centro da estampa parece representar o movimento dos jogadores em campo; se você olhar uma foto do Vinícius Júnior chutando a bola, dá para ver como o gesto dialoga com o design. É uma das minhas favoritas.”

De acordo com Tati, a camisa titular é um acerto preciso, enquanto o deslize veio na tentativa de inovar: “O Brasil resgatou o amarelo-canário que a gente ama, aquele tom vibrante que remete às campanhas de 1970 e 2002. É uma camisa que honra a memória sem ficar presa nela. O deslize foi tentar inovar com o ‘Brasa’, uma versão alternativa que não colou. Às vezes o acerto está em saber o que não mudar”, pontua.

O design esportivo para peças símbolos de estilo

Com os lançamentos da Copa de 2026, fica ainda mais claro como a camisa de futebol ultrapassou o campo e se firmou como peça de estilo.

Esse movimento nasce de uma combinação de fatores: o retorno da estética dos anos 90 e 2000, que resgata esses uniformes como símbolos de uma época, a influência crescente da moda de rua — que transforma peças esportivas em itens desejados e até colecionáveis — e uma mudança de comportamento, em que vestir uma camisa já não depende mais de torcer, mas de se identificar com o que ela comunica.

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