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Crítica — “Preta – Eu Não Ando Só”

24/07/2026 • 18:30 • Por Redação NTD

Doc transforma a despedida em um poderoso manifesto sobre a vida — e não poupa personagens de sua história

Há documentários que se limitam a organizar fatos em ordem cronológica e há aqueles que compreendem que a verdade emocional raramente segue uma linha reta. “Preta – Eu Não Ando Só” pertence à segunda categoria. O longa recusa o formato convencional da cinebiografia para construir um relato profundamente íntimo sobre os últimos anos de Preta Gil, convertendo sua luta contra o câncer em uma reflexão sobre afeto, finitude, amizade, e permanência. O resultado é um filme de rara sensibilidade, que emociona não por explorar o sofrimento de sua protagonista, mas por evidenciar sua capacidade de transformar dor em humanidade.

A direção evita o didatismo, e confia na força dos registros espontâneos. Não há excessos melodramáticos nem manipulação evidente da emoção. A câmera acompanha uma Preta plenamente consciente da gravidade de seu estado de saúde, mas igualmente determinada a preservar aquilo que sempre definiu sua personalidade: o humor, a irreverência, e a recusa em permitir que a doença ocupasse todo o espaço de sua existência. Essa escolha narrativa confere ao documentário uma autenticidade pouco comum. O espectador não acompanha apenas uma paciente oncológica; encontra uma mulher inteira, vulnerável, contraditória, e, justamente por isso, inspiradora.

Entre as sequências mais marcantes está a conversa em que Preta organiza o próprio velório com uma serenidade desconcertante. Em outro momento, fala sobre a ideia de transformar suas cinzas em diamantes destinados às pessoas que ama, em uma metáfora delicada sobre permanência e memória. O simbólico último mergulho, por sua vez, sintetiza o espírito do filme: viver até onde for possível, preservando a liberdade mesmo quando o corpo começa a impor seus limites. São cenas que dificilmente deixam o espectador indiferente, porque encontram beleza justamente onde normalmente existe apenas temor.

Mas o documentário também compreende que nenhuma vida é construída apenas por lembranças confortáveis. Em determinado momento, a narrativa desloca seu foco para o colapso do casamento entre Preta e Rodrigo Godoy, episódio tratado como uma das maiores feridas emocionais enfrentadas pela cantora durante o tratamento contra o câncer. Amigos próximos reconstroem aquele período sem economizar palavras. Carolina Dieckmann afirma que a infidelidade representou “uma porrada maior do que o câncer”, enquanto Gominho relembra ter decidido abandonar a própria casa para morar com a amiga e ajudá-la a atravessar aquele momento devastador. A montagem conduz naturalmente o espectador à percepção de que o trauma sentimental potencializou um sofrimento que já era extremo.

É justamente aí que o roteiro assume um posicionamento narrativo bastante claro. Godoy acaba retratado sob uma perspectiva essencialmente vilanesca, construída quase exclusivamente pelos relatos daqueles que permaneceram ao lado de Preta. Sob o ponto de vista cinematográfico, essa opção é compreensível: trata-se de um filme concebido para contar a história de Preta a partir de sua própria vivência e da memória afetiva de seu círculo mais íntimo. Ainda assim, é impossível ignorar que o ex-marido não dispõe do mesmo espaço para apresentar sua versão dos acontecimentos.

Curiosamente, essa ausência de contraponto produz um dos momentos mais curiosos — e, paradoxalmente, mais honestos — do documentário. Não porque se transforme em um tribunal, mas porque reproduz uma dinâmica bastante comum da própria vida: muitas vezes somos julgados pela narrativa construída ao nosso redor sem que tenhamos oportunidade de responder. Assim é o mundo real. O filme definitivamente não parece interessado em equilibrar versões; interessa-lhe tão somente registrar como aquelas pessoas viveram aquele episódio, e como decidiram lembrá-lo. Essa escolha certamente dividirá opiniões... E dificilmente deixará público ou personagens reais indiferentes ao resultado final.

Tecnicamente, a produção se destaca pela montagem elegante, pela fotografia discreta, e pela inteligência em saber quando permitir que o silêncio diga mais do que qualquer trilha sonora. Nada parece excessivamente calculado. A emoção nasce das pequenas conversas, dos olhares, das pausas, e da chocante naturalidade com que Preta encara temas que a maioria de nós evita mencionar. O longa jamais transforma sua protagonista em uma heroína inalcançável; ao contrário, encontra sua grandeza justamente nos seus aspectos mais mundanos.

Ao final, “Preta – Eu Não Ando Só” confirma que os melhores documentários não são aqueles que pretendem oferecer respostas definitivas, mas os que despertam reflexões duradouras. É uma obra sobre a morte que, paradoxalmente, celebra a vida; sobre despedidas que reafirmam vínculos; sobre perdas que revelam a dimensão do amor. E, ao expor, sem filtros, as virtudes e as cicatrizes que marcaram os últimos capítulos da trajetória de Preta Gil, entrega um retrato profundamente humano, capaz de emocionar, provocar e, sobretudo, permanecer na memória muito depois de os créditos finais desaparecerem da tela.

Leo Pinheiro é diretor de Cinema e Jornalista, com passagem por revistas como Veja, Isto É, Exame e Viver Brasil, onde atuou como correspondente internacional, em Nova Iorque.