Dirigido por Marcio Meirelles, espetáculo “Ultimatum” mistura realidade, ficção e metalinguagem para refletir sobre arte, criação e o sentido da vida
O Teatro olha para si mesmo e encontra, no reflexo, as inquietações da existência. Em “Ultimatum”, último texto escrito pelo dramaturgo e cineasta Domingos Oliveira (1936-2019), personagens, atores e criadores se confundem em uma narrativa que transforma o palco em um espaço de questionamentos sobre arte, memória, acaso e destino. A montagem inédita dirigida por Marcio Meirelles segue em cartaz no Teatro de Arena do Sesc Copacabana e marca a estreia do encenador em um texto do renomado autor carioca.
Selecionado pelo Edital de Cultura Sesc RJ Pulsar, o espetáculo acompanha um grupo de teatro que tenta criar uma peça em meio à escassez de recursos, tempo e certezas. A trama se desenvolve de forma fragmentada e metalinguística, misturando ensaio teatral, ficção televisiva e lembranças pessoais. No centro da narrativa está Eugênio, um dramaturgo dividido entre diferentes versões de si mesmo, enquanto histórias de amor, ciúme, abandono, paixão e morte surgem entrelaçadas em uma reflexão sobre o impulso humano de encontrar significado para a vida.
Entre o acaso e a criação
Segundo Marcio Meirelles, o fascínio pela obra surgiu ainda em vida de Domingos Oliveira, durante uma leitura do texto realizada ao lado do autor. O diretor destaca a estrutura caótica e poética da dramaturgia, construída a partir de fragmentos e múltiplas camadas narrativas. Para compreender a essência da peça, Meirelles teve acesso a 12 versões diferentes do texto, além de materiais produzidos por Domingos para os ensaios, em um processo que define como uma verdadeira investigação sobre a gênese da obra.
A montagem reúne um elenco formado por Adassa Martins, Ciro Sales, Guilherme Magon, Jojo Rodrigues, Lucio Tranchesi, Orlando Caldeira e Valéria Monã, além de incorporar uma dinâmica audiovisual com participações de artistas como Caio Blat, Clarice Niskier e Maitê Proença, que compartilham depoimentos sobre a amizade, a trajetória e a obra de Domingos Oliveira. Em cena, a peça se apresenta como uma sucessão de espelhos narrativos, revelando os bastidores da criação artística e reafirmando o teatro como uma arte viva, capaz de transformar incertezas em poesia.