Conhecida como Mia Montenegro, investigada circulava entre empresários, integrantes da alta sociedade e órgãos do governo
Entre salões sofisticados, eventos exclusivos e corredores do poder, Michele, mais conhecida como Mia Montenegro, construiu uma personagem que parecia saída de um roteiro de ficção. Apresentando-se como advogada, empresária bem-sucedida e herdeira de uma fortuna, ela conquistou a confiança de empresários, integrantes da alta sociedade carioca e agentes públicos. A fachada ruiu nesta quarta-feira, 3, quando a suspeita foi presa durante a Operação Tela Falsa, da Delegacia de Defraudações (DDEF), acusada de integrar um esquema de estelionato e apropriação indébita envolvendo obras de arte e imóveis de luxo. Após a prisão, ela foi exonerada do cargo que ocupava na Casa Civil do Estado por determinação do secretário Flávio Willeman.
As investigações apontam que Michele utilizava uma narrativa cuidadosamente construída para convencer vítimas a participar de negócios supostamente vantajosos. Segundo a Polícia Civil, ela se apresentava como integrante de uma família rica e influente e oferecia oportunidades envolvendo negociações de obras de arte e imóveis de alto padrão. O prejuízo estimado ultrapassa R$ 5 milhões. Entre os episódios investigados estão a negociação irregular de um apartamento de luxo em Copacabana e a venda de obras de arte mediante pagamentos feitos com cheques sem fundos que, de acordo com os investigadores, nunca foram compensados.
Rede de fraudes
Nomeada há cerca de um ano, durante a gestão do então governador Cláudio Castro, Michele estava lotada na Casa Civil, e atuava em um projeto de educação ambiental e economia circular voltado para os Palácios Guanabara e Laranjeiras, denominado “Palácio Verde”. A golpista transitava com frequência por órgãos estaduais, como a Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa e a Subsecretaria de Gastronomia, além de manter relações com empresários ligados ao setor gastronômico e à vida noturna de Ipanema. Para desempenhar suas funções, tinha à disposição um veículo oficial modelo Logan, recuperado pelo Estado após sua prisão. Sua exoneração foi publicada em edição extraordinária do Diário Oficial na noite de quarta-feira.
Durante a Operação Tela Falsa, agentes cumpriram mandados de prisão, busca e apreensão em endereços localizados em Ipanema, Barra da Tijuca, Recreio dos Bandeirantes e Niterói. Uma obra de arte foi recuperada e diversos documentos, comprovantes bancários sem lastro financeiro, cheques considerados fraudulentos e outros registros foram recolhidos para análise. De acordo com a Polícia Civil, Michele possui 17 anotações criminais anteriores. As investigações prosseguem para identificar possíveis comparsas, rastrear o destino dos recursos obtidos por meio das fraudes e localizar bens que possam ter sido adquiridos com dinheiro proveniente dos golpes. Outros envolvidos poderão responder por crimes de estelionato, apropriação indébita e demais infrações eventualmente constatadas ao longo da apuração.