Durante décadas, o caminho do Brasil rumo ao Oscar dependia quase exclusivamente de uma única decisão: a escolha feita pela Academia Brasileira de Cinema. Bastava um filme ficar fora dessa seleção oficial para ver o sonho hollywoodiano morrer antes mesmo da largada. Agora, porém, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos decidiu implodir esse modelo tradicional e criar uma nova regra que promete transformar profundamente o Cinema brasileiro; e colocar em cena uma palavra que boa parte da classe artística nacional aprendeu a tratar quase como um palavrão: meritocracia.
A partir da edição de 2027, filmes internacionais poderão alcançar a disputa do Oscar não apenas pela indicação oficial de cada país, mas também por desempenho próprio nos maiores festivais do mundo, como Cannes, Berlim, Veneza, Sundance, Toronto, e Busan. Na prática, isso significa que uma produção brasileira premiada nesses circuitos poderá entrar diretamente na corrida pela estatueta, mesmo sem o aval da Academia Brasileira de Cinema.
A mudança histórica da Academia de Hollywood enfraquece o poder de indicação exclusivo da Academia Brasileira de Cinema, e desmonta um sistema criticado há anos por cineastas independentes, produtores, e parte do público, que enxergavam na escolha nacional uma espécie de “funil ideológico” capaz de concentrar poder nas mãos de poucos grupos influentes do audiovisual. Até aqui, o país enviava apenas um representante oficial para a categoria de Melhor Filme Internacional, o que transformava a seleção brasileira em praticamente uma sentença definitiva sobre quem teria ou não projeção global. Agora, Hollywood cria um atalho baseado em reconhecimento internacional concreto, reduzindo o peso das articulações internas, e ampliando o espaço para filmes que consigam repercussão por mérito próprio.
A decisão também pode provocar uma revolução silenciosa na forma como o Cinema brasileiro se posiciona no exterior. Em vez de concentrar esforços apenas em convencer um pequeno comitê nacional, produtores passam a mirar diretamente os grandes festivais internacionais, onde crítica, público, e jurados estrangeiros funcionam como termômetro global de relevância artística. É uma lógica que aproxima o Oscar de critérios mais objetivos de impacto e reconhecimento, diminuindo a dependência de relações políticas, grupos de influência, e disputas internas que frequentemente cercam o audiovisual brasileiro.
Para muitos profissionais do setor, o novo cenário representa uma democratização histórica. Para outros, é uma ameaça ao antigo modelo de controle institucional. O fato é que a Academia de Hollywood sinaliza uma mudança de mentalidade: filmes não precisarão mais depender exclusivamente de uma “benção” local para alcançar o Oscar. Em uma indústria acostumada a debater financiamento público, representatividade, e influência cultural, Hollywood agora introduz um elemento desconfortável para parte do meio artístico brasileiro: a ideia de que reconhecimento internacional também pode ser conquistado por desempenho, repercussão, e competitividade. Em outras palavras, por meritocracia.
Leo Pinheiro é diretor de Cinema e Jornalista, com passagem por revistas como Veja, Isto É, Exame e Viver Brasil, onde atuou como correspondente internacional, em Nova Iorque.