Notícia Todo Dia NTD
A Graça Da Vida

O Mal-Estar na Escolarização: Tecendo Redes de Cuidado em Tempos de Hostilidade

12/03/2026 15:57 Por Redação NTD

Entre o divã e a sala de aula, a urgência de políticas públicas e o resgate do diálogo familiar como antídotos à violência infantojuvenil

O cenário educacional brasileiro atravessa um período de intensas turbulências, onde o ambiente de aprendizado tem sido palco de manifestações agudas de violência. Sob a ótica psicanalítica, o que testemunhamos não é apenas o ato agressivo em si, mas o "atuar" de um sofrimento psíquico que não encontra palavras para ser dito. A escola, enquanto microssistema social, reflete o esgarçamento dos laços afetivos e a dificuldade dos jovens em processar frustrações e o bombardeio de estímulos digitais. É imperativo que a instituição de ensino deixe de ser apenas um local de transmissão de conteúdo e se torne um posto de observação sensível, capaz de identificar sinais de isolamento, mudanças bruscas de comportamento e a erosão da empatia entre pares.

Para que essa vigilância não se torne puramente punitiva, a escola precisa institucionalizar espaços de escuta. A saúde mental no ambiente escolar deve ser tratada como um pilar estruturante, onde educadores são capacitados para diferenciar o conflito inerente ao crescimento da violência patológica. Estratégias como as assembleias de classe e o fortalecimento da mediação de conflitos permitem que a agressividade, pulsão inerente ao ser humano, seja sublimada e transformada em discurso. Quando a escola falha em ler os sintomas silenciosos, como a autolesão ou o bullying sistemático, ela perde a oportunidade de intervir antes que o mal-estar se converta em tragédia física.

O papel do Estado e das Prefeituras transcende a mera gestão administrativa, exigindo ações precisas e imediatas que não podem mais ser adiadas. É fundamental a implementação de equipes intersetoriais, unindo Saúde e Educação, que garantam a presença de psicólogos, psicanalistas e assistentes sociais de forma perene nas unidades escolares, conforme previsto em legislação nacional. Além disso, o poder público deve investir em programas de inteligência emocional e segurança preventiva que fujam da lógica do "blindar escolas", focando, em vez disso, no monitoramento de redes sociais e na criação de fluxos rápidos de atendimento psiquiátrico para jovens em crise, evitando que a burocracia estatal seja um entrave ao socorro psicológico.

A eficácia dessas medidas governamentais depende da integração com o território e com a rede de proteção social. Não basta que a Prefeitura envie técnicos, é necessário que haja uma política de acolhimento aos próprios professores, que muitas vezes se encontram exaustos e desamparados diante da complexidade dos novos tempos. O investimento em infraestrutura de lazer, cultura e esporte no entorno das escolas também atua como um fator de proteção, oferecendo a criança e ao adolescente, vias de escoamento para sua energia e criatividade, afastando-o de discursos de ódio que proliferam em ambientes de ócio e desassistência.

A Tríade Necessária: Escola, Estado, e a Responsabilidade Parental

No centro desse ecossistema, o papel dos pais e responsáveis é insubstituível e exige uma postura de presença vigilante, mas não invasiva. A família funciona como a primeira pele psíquica do sujeito, se essa pele é frágil ou ausente, o jovem busca no mundo externo, muitas vezes de forma violenta, o limite que não recebeu em casa. Os pais devem ser parceiros ativos das ações escolares, participando não apenas de reuniões de notas, mas de fóruns de discussão sobre saúde mental e cidadania digital. É no seio familiar que se inicia o letramento emocional, ensinando a criança a nomear o que sente e a reconhecer o outro como um semelhante digno de respeito, e não como um objeto de descarte ou um inimigo. Por fim, a solução para a violência escolar não reside em medidas isoladas, mas em um pacto coletivo de cuidado.

Os pais têm a responsabilidade de monitorar o conteúdo consumido por seus filhos no ambiente virtual, onde o radicalismo costuma ser gestado sob o manto do anonimato. Quando a família se omite, o Estado se torna o último recurso, mas muitas vezes chega tarde demais. Portanto, a ação imediata requer que a escola acolha, o Estado viabilize o suporte técnico-financeiro e os pais sustentem o suporte afetivo e ético. Somente através dessa articulação será possível devolver à juventude o direito de habitar o futuro sem o medo constante da violência que nasce do silêncio e do desamparo.

@gracaduartecomunicacao

Graça Duarte é jornalista, escritora, psicanalista e parapsicóloga. Atua nas áreas de assessoria de comunicação, gestão de tráfego, projetos, eventos, cursos e palestras; e escreve sobre bem-estar e saúde mental no Notícia Todo Dia.