Entre o prazer coletivo e o excesso invisível, o Carnaval testa limites físicos e emocionais
O Carnaval é, ano após ano, um grande experimento social a céu aberto. Corpos em movimento sob calor intenso, multidões comprimidas, música alta, pouco sono, hidratação irregular e aquela licença simbólica que sussurra: “agora pode, é Carnaval”. Nesse cenário, a linha entre diversão e excesso se torna tênue — e o que começa como celebração pode rapidamente se transformar em um impulso coletivo que empurra limites pessoais, nem sempre para o lado saudável.
O psicólogo Vitor Friary alerta que episódios de binge drinking (ato de ingerir uma grande quantidade de álcool em um curto período) e o uso de drogas recreativas deixam de ser apenas escolhas individuais e passam a ser fortemente moldados pelo comportamento do grupo. A presença constante de amigos, as expectativas de festa e a sensação de anonimato na multidão reduzem a percepção de risco e ampliam a tolerância aos excessos, criando um ambiente propício para decisões tomadas no automático.
Quando o autocuidado some da fantasia
Para Friary, o problema não está na celebração em si, mas no momento em que o autocuidado é esquecido. “Quando a experiência entra no modo automático e o autocuidado desaparece. Os efeitos aparecem em diferentes frentes: desidratação e insolação, quedas e acidentes, exposição a situações de violência, prejuízo do julgamento e, em casos extremos, intoxicação e overdose”, diz. O impacto, porém, não termina na Quarta-feira de Cinzas: o pós-folia pode trazer ansiedade, arrependimento e agravamento de quadros psiquiátricos pré-existentes.
Reduzir riscos sem perder a festa é possível e passa por escolhas práticas. Combinar limites claros de consumo com o grupo, intercalar bebidas alcoólicas com água, garantir pausas para descanso e sombra, evitar aceitar bebidas de estranhos e ter atenção redobrada a misturas perigosas são medidas essenciais. Reconhecer sinais de intoxicação — como confusão mental, vômitos persistentes, respiração irregular ou perda de consciência — e procurar ajuda médica imediatamente pode salvar vidas. O Carnaval segue sendo um espaço de alegria coletiva, desde que cuidar de si e do outro também faça parte do bloco.