Manuscrito é uma das pérolas dos 356 lotes do leilão que será realizado nos dias 21 e 22 no Rio de Janeiro
Num relicário de papéis que atravessam décadas, uma das vozes mais marcantes da literatura brasileira ressurge com surpreendente delicadeza. Entre os 356 lotes do leilão virtual organizado pela livraria Letra Viva, que será realizado nos dias 21 e 22 no Rio de Janeiro, repousa uma carta de Graciliano Ramos para sua mulher, Heloisa — escrita em 1936, quando o autor estava preso na Ilha Grande.
O documento é uma das raridades do evento, que traz livros, revistas, autógrafos e manuscritos de diferentes épocas. Na carta, Graciliano relata que começou a estudar russo na prisão — “você vê que aqui temos professores (…) Se tiver a sorte de me demorar aqui uns dois ou três meses, creio que aprenderei um pouco de russo para ler os romances de Dostoiévski.”
Entre percevejos e silêncios
Com franqueza contida, o escritor também descreve as condições do cárcere, mencionando que divide a cama com insetos: “As camas têm percevejos, mas ainda não os senti.” Apesar disso, não apresenta queixas diretas — e sugere, de modo sutil, a vigilância da ditadura Vargas: “Não lhe pergunto nada, porque as cartas não me seriam entregues”.
Para os organizadores, peças como essa revelam não apenas o valor histórico dos manuscritos, mas a humanidade que atravessa a obra de Graciliano. O leilão, aberto ao público, promete atrair colecionadores e admiradores em busca de fragmentos preciosos da memória literária brasileira.
Leia abaixo o texto completo da carta:
"27/03/1936 Heloísa: até agora vou passando bem. Encontrei aqui excelentes companheiros. Somos setenta e dois no pavilhão onde estou. Passamos o dia em liberdade. Hoje comecei a estudar russo. Já você vê que aqui temos professores. O Hora estuda alemão. Entre os livros existentes, encontrei um volume de Caetés, que foi lido por um bando de pessoas. Companhia ótima. Se tiver a sorte de me demorar aqui uns dois ou três meses, creio que aprenderei um pouco de russo para ler os romances de Dostoiévski. Nas horas vagas jogo xadrez ou leio a História de Portugal. Julgo que sou um dos mais ignorantes daqui. Pediram-me uma conferência sobre a literatura do nordeste, mas não tenho coragem de fazê-la. As conferências aqui são feitas de improviso, algumas admiráveis. Tudo bem. As camas têm percevejos, mas ainda não os senti. Quanto ao mais, água abundante, alimentação regular, bastante luz, bastante ar. E boas conversas, o que é o melhor. Não lhe pergunto nada, porque as cartas não me seriam entregues. Abraços para você e para todos. Beijos nos pequenos. Graciliano."