Levantamento apresentado no Fórum Brasil Diverso 2025 revela sensação de impotência diante do racismo e aponta empresas como instituições mais confiáveis que governantes
Uma pesquisa inédita intitulada “O Consumo Invisível da Maioria” - Percepções, Gatilhos e Barreiras de Consumo da População Negra no Brasil, mostram que, para a população negra, as empresas inspiram mais credibilidade do que o próprio Estado. Segundo o estudo, 85,3% dos entrevistados afirmaram confiar no empresariado, enquanto apenas 68,7% mantêm alguma confiança nos governantes. O levantamento, apresentado neste domingo, 10, no Fórum Brasil Diverso 2025, também evidencia a sensação de impotência diante das múltiplas faces do racismo, da violência policial (22%) à falta de oportunidades de trabalho (20,7%).
O estudo foi elaborado pelos institutos Akatu, DataRaça e Market Analysis a partir da força de consumo da população negra, que movimenta R$ 1,9 trilhão por ano no país. Com base em mil entrevistas aplicadas em todas as regiões do Brasil e cruzadas com dados da Pnad Contínua, do IBGE, o levantamento aponta que, mesmo com avanços em inclusão e representatividade, o racismo estrutural ainda molda experiências de consumo e a percepção sobre instituições públicas e privadas.
Polarização e normas empresariais
Para Maurício Pestana, presidente do DataRaça e fundador do Fórum Brasil Diverso, o clima de polarização política ajuda a explicar por que os negros confiam mais nas empresas do que nos governos. “Vivemos um cenário em que as leis são frequentemente burladas e as regras, mal cumpridas. Já nas empresas há normas claras contra discriminação e compromissos que precisam ser seguidos”, afirmou. O relatório indica ainda que ONGs (31%) e instituições religiosas (30,7%) estão entre as mais confiáveis; grandes companhias nacionais (17,1%) e multinacionais (16,1%) obtêm índices menores, mas ainda superiores aos dos governos.
A pesquisa também revela o peso do racismo no cotidiano e nas relações de consumo: 34,8% dos consumidores negros relataram ter sofrido discriminação ao adquirir um produto ou contratar um serviço no último ano. Na maior parte das ocorrências, o preconceito se manifestou de forma dissimulada, por meio de olhares desconfiados, tratamento diferenciado ou abordagens constrangedoras. Lojas de roupas e calçados (24,5%), shoppings (17%) e supermercados (16,8%) foram os locais mais citados. Ao mesmo tempo, setores como beleza, moda e e‑commerce vêm conquistando maior confiança desse público, sinalizando que acolher a diversidade pode ser, além de uma postura ética, também uma estratégia de mercado.