Novo volume da coleção Café com Freud e Lacan discute amor, sexualidade, e os efeitos da idealização romântica na saúde mental
O coração acelerado, a fome que some e o pensamento que não descansa. A paixão, esse velho conhecido das novelas e das canções, ganha agora o divã. No quarto volume da coleção Café com Freud e Lacan, intitulado “Amor e sexualidade, questões atuais de relacionamento e os efeitos na saúde mental”, psicanalistas se debruçam sobre os enigmas do amor moderno e seus impactos psicológicos. Um dos temas mais provocativos do livro — a paixão — é abordado à luz da teoria de Jacques Lacan, convidando o leitor a repensar o que sente quando o coração insiste em sair pela boca.
De acordo com a pesquisa Love Life Satisfaction, divulgada em 2025 pela Ipsos, os brasileiros são os menos satisfeitos com a vida amorosa entre os países latino-americanos. Para a psicanalista Fabiana Ratti, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP e uma das autoras do volume, parte dessa insatisfação vem da nostalgia de um ideal juvenil. “O coração saindo pela boca, a ansiedade de receber um recado, o olhar que tira o chão — tudo isso remete ao estado de Real, conceito lacaniano que traduz o impacto do novo, do que ainda não tem nome”, explica. Segundo ela, muitos adultos buscam reviver esse êxtase, confundindo intensidade com amor verdadeiro.
Entre adrenalina e autossabotagem
Fabiana alerta que essa busca por “borboletas no estômago” leva, muitas vezes, a relacionamentos instáveis. “É comum ver adultos terminando vínculos sólidos porque não sentem a mesma euforia da adolescência”, afirma. Essa necessidade de emoção pode se traduzir em romances tórridos, encontros secretos e jogos de ciúme, que ativam a adrenalina e o desejo, mas também a ansiedade e o sofrimento. “Esses envolvimentos confundem adrenalina com paixão e acabam reforçando padrões de carência, narcisismo e até masoquismo”, destaca.
Para a psicanalista, é possível estar apaixonado mesmo após anos de convivência — desde que se reconheça que o amor maduro não depende de sobressaltos. “Um olhar, um gesto de cuidado, uma conversa em sintonia podem reacender o encantamento”, diz. Fabiana defende que o amor, quando cultivado sem expectativas adolescentes ou jogos de poder, pode ser mais intenso e duradouro do que qualquer paixão passageira. Afinal, talvez o verdadeiro desafio seja deixar de buscar o fogo da novidade para aprender a manter acesa a chama da presença.